O passado não reconhece o seu lugar... está sempre presente.
( Mário Quintana )

O caso Carlinhos

By Bruxx


O caso Carlinhos - Carlos Ramires da Costa - vassourando

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O caso Carlinhos - Carlos Ramires da Costa - vassourando O caso Carlinhos - Carlos Ramires da Costa - vassourando
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Carlos Ramires da Costa (1963 - ????), o "Carlinhos"

Quem era criança no começo dos anos 70 com certeza viveu um pouquinho sob a sombra do “caso Carlinhos”, o desaparecimento do menino Carlos Ramires da Costa, então com 10 anos, seqüestrado no dia 2 de agosto de 1973 e nunca mais localizado.
A polícia carioca, já então tão competente quanto hoje, apresentou três diferentes “culpados”, em sucessão, mas nenhuma das acusações colou.
O pai do menino acabou se tornando o principal suspeito, e alguns anos mais tarde um sujeito que trabalhava com o empresário João Melo da Costa chegou a ser condenado pelo seqüestro (a condenação foi revertida posteriormente).
Trinta anos mais tarde, um cara de Bauru foi apontado como potencial “Carlinhos”, mas os exames de ADN não confirmaram a suposição.

Apesar de todos os esforços do governo militar pra fazer com que o país parecesse jóinha, era uma época tensa.
Mesmo para as crianças, ou talvez especialmente para as crianças, era fácil perceber que a situação não era tão sorridente quanto nos diziam.
Não é que a gente tivesse qualquer percepção política de que as coisas andavam erradas, claro. Mas os anos 70 com certeza foram uma década propensa a pesadelos.
E um caso como o do Carlinhos apertava todos os botões de pânico no inconsciente da pimpolhada. (E mais ainda entre os pais.)
Que um menino bonitinho, sorridente e descabelado como o Carlinhos pudesse
desaparecer sem deixar traço era quase como que uma confirmação das lendas urbanas que as mães de todas as eras gostam de nos empurrar goela abaixo – o bicho papão, o homem do saco, o delegado Fleury, o pessoal do Extreme Makevoer.

O caso causou comoção nacional... não sei se porque na época aconteciam menos barbaridades desse gênero, ou se porque não se podia falar sobre as outras.
Talvez a obsessão nacional quanto ao paradeiro de Carlinhos fosse uma expressão inconsciente da preocupação de todo mundo com os desaparecidos cujos nomes não podiam ser ditos.
Ou talvez todo mundo temesse e pressentisse que viveríamos para sempre à sombra de muitos “casos Carlinhos”, e que, por repetição, não nos deixaríamos abalar tanto pela futura recorrência daquele pesadelo.
Eu não sabia, então, que crianças desapareciam, que crianças vinham desaparecendo ao longo de todo o século – no genocídio dos armênios, no Holocausto, no Gulag, pulverizadas por bombas atômicas ou liquefeitas por incendiárias.
O Carlinhos me ensinou embora eu viesse a demorar mais uns 10 anos pra saber que sabia sobre a enorme precariedade de todas as coisas que quando inocentes consideramos sólidas e garantidas.
(créditos de trechos para: filthymac)
A intenção do governo militar era construir uma realidade que deveria ser difundida pelos meios de comunicação, mesmo que implicasse omissões da verdadeira "realidade".
Em 1974, Fernando Mendes sofreu a barreira dos generais graças a uma canção de seu segundo disco - Meu Pequeno Amigo -, que focalizava um caso policial polêmico da época, o seqüestro do garoto Carlos Ramirez da Costa, o Carlinhos, ocorrido na noite de 2 de agosto de 1973.

Carlinhos, então com 10 anos, assistia à televisão ao lado da mãe quando foi levado de casa sob a ameaça de um revólver de um homem negro de cabelo afro, que deixou um bilhete exigindo um resgate de 100 mil cruzeiros. 
O pai do garoto esforçou-se para arrumar o dinheiro, mas a negociação nunca aconteceu pois, depois de uma primeira tentativa, não houve mais contato dos seqüestradores e o Caso Carlinhos permanece como um dos maiores mistérios policiais do Brasil.

Fernando Mendes tratou do assunto em uma letra triste: "Sem querer você se foi / e hoje choram por você... / ...até as flores do jardim entristeceram / sentiram sua falta / morreram...
O departamento de censura liberou a canção com a ressalva de que se colocasse no subtítulo entre parênteses a informação "Tributo a Carlinhos" -  Desaparecidos. 
Quando já era tocada pelas rádios, porém, a música foi proibida. 
Motivo: em nenhuma das suas estrofes aparece o nome de Carlinhos. 
Pior: trata de um amigo desaparecido ("Digam pra mim / digam pra mim onde ele está / e o que foi que fizeram / com meu pequeno amigo?") em um momento em que diversas pessoas estavam também "desaparecidas".

Segundo o relatório do projeto Brasil: nunca mais, citado pelo pesquisador, é exatamente no período 1973/74 que se registra o maior número de desaparecidos políticos no Brasil.
"Assim, a música tocava numa ferida que o regime militar não queria ver exposta pela lente ampliadora da canção popular", escreve Paulo César de Araújo. 
(créditos do texto acima para: tribuna samba choro)

Para refletir:
"Se você pensa e age como sempre fez, vai ser o que sempre foi"
 (Mario Diotto)

Vassourando as lembranças do passado, desde 17/05/2007.

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